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sábado, 11 de janeiro de 2014

FLORA FIGUEIREDO RELENDO SUA POESIA

 

 

 

Flora Figueiredo é poeta, cronista e tradutora, consagrada pelo sucesso dos livros Florescência (1987), Calçada de Verão (1989), Amor a Céu Aberto (1992) e, mais recentes, Chão de Vento (2011) e Limão Rosa.

Seus poemas focalizam o amor, o cotidiano, relacionamentos, crenças, natureza... um misto de pensamentos e sentimentos que nos encantam  pelas sensações intensas e tranquilas, deparadas entre um verso e outro.

Reuni alguns dos muitos poemas que releio sempre com prazer nesta coletânea aqui transcrita para os leitores deste blog.


CAIXA DE COSTURA

Venho costurando minha vida
com linhas de saudade.
Procuro equilibrar-lhes a cor
para que o resultado final não seja triste.
Por vezes, é o cinza que insiste;
por vezes, impera o marrom.
Ainda bem que tem saudade bonita;
mudo o tom, amarro fitas,
busco a outra ponta do novelo;
intercalo a trama em amarelo.
A saudade é assim mesmo,
tecelã do tempo.
Quando menos se espera,
arremata o momento,leva embora,
deixa a porta encostada, o cadarço de fora,
e nunca avisa a hora de voltar.
Ainda hei de costurar com verde florescente
e, se a saudade chegar autoritariamente,
vai se sentir enfraquecida.
Enquanto procuro a cor,
vou costurando a vida,
sem saber qual vai ser o resultado.
Caso ele não fique combinado,
dou um nó, encosto agulha, guardo a linha,
que essa culpa roxa não é minha.
É uma artimanha branca do passado.

 
Em  O Trem Que Traz a Noite, 2000

CALEIDOSCÓPIO

Pela fresta observo a dança das cores
nos vidros recortados.
Separam-se, aglutinam-se,
desenham maravilhas
Como se bailassem calçando sapatilhas.
A cada movimento, uma surpresa,
a mesma flor concebida com destreza,
em seguida se espalha e se desfaz.
Por trás de seu processo giratório,
o caleidoscópio avisa:
a forma é fugaz e imprecisa
e o colorido de hoje é provisório.

Em  O Trem Que Traz a Noite, 2000

CATAVENTO

A cada esquina,
há um cheiro de verão
que me entontece,
afaga,
contamina.
já não sei mais a direção.
Que sorte a minha perder o Norte!
Se os meus pontos cardeais
fossem definidos,
não caberia esse amor tão proibido,
que sofre, goza muito e pede mais.

Em O Trem que Traz a Noite, 2000

ÚLTIMA PÁGINA

Mais uma vez o tempo me assusta.
Passa afobado pelo meu dia,
Atropela minha hora,
Despreza minha agenda.
Corre prepotente,
A disputar lugar com a ventania.
O tempo envelhece, não se emenda.
Deveria haver algum decreto
Que obrigasse o tempo a desacelerar
E a respeitar meu projeto.
Só assim, eu daria conta
Dos livros que vão se empilhando,
Das melodias que estão me aguardando,
Das saudades que venho sentindo,
Das verdades que ando mentindo,
Das promessas que venho esquecendo,
Dos impulsos que sigo contendo,
Dos prazeres que chegam partindo,
Dos receios que partem voltando.
Agora, que redijo a página final,
Percebo o tanto de caminho percorrido
Ao impulso da hora que vai me acelerando.
Apesar do tempo, e sua pressa desleal,
Agradeço a Deus por ter vivido,
Amanhecer e continuar teimando...

Em  Chão de Vento, 2005

RETROSPECTIVA

Porque a vida é feita de proibições,
eu não compus todas as canções,
não percebi a brisa suspirar,
eu esqueci cantigas de ninar,
dei chances demais à voz dos credos,
não rompi de vez todos os medos,
roubei do tempo um tanto de carinho,
não vi a flor amar o passarinho,
perdi o trem na curva da vertente
e não deixei o mel melar completamente.
Porque a vida é feita de proibições,
larguei o fio, soltaram-se os balões,
deixei que o pião revirasse sozinho,
mandei que o zangão se zangasse baixinho,
desprezei a bruma que baixou o véu,
permiti à palavra dormir no papel,
evitei o desvio que atravessa a estrada,
Não quis o desafio da ronda embriagada,
não li o poema do poeta maldito
e não tive o dilema do beijo infinito.
Porque ainda há tempo para o encantamento,
quebre-se o vidro do sermão absoluto,
rompa-se a teia, reveja-se o estatuto,
que a primavera quer amar o chão de vento.

Em Chão de Vento, 2005

VIVÊNCIA

Se sua rua porventura aparecer
coberta de pétalas caídas
pela inclemência
de um vento qualquer,
não faça nada.
Deixe-a assim desordenada
e descabida.
São reticências que sobraram da estação passada.
Acabarão varridas pela própria vida.

Em  Amor a céu aberto, 1992

LEMBRETE

Não deixe portas entreabertas

Escancare-as

Ou bata-as de vez.

Pelos vãos, brechas e fendas

Passam apenas semiventos,

Meias verdades

E muita insensatez.  

OUTONO

A manhã de Outono amarelou a janela
como se em vez de minha, fosse dela.
Um céu azul insistente
veio compor a pintura
por entre galhos de ipê.
Agora, só faltava você
pra completar a cena na moldura.

Em  O Trem que Traz a Noite, 2000

VAMOS

Deus:
Meu respeito.
Sei que não é direito escrever
só pra fazer reclamação.
E por isso então
que desta vez
venho propor ajuda.
Está tudo conturbado
em tudo quanto é canto,
pra tudo quanto é lado.
Ou é o canto que dá errado,
ou é o lado que não muda.
Decidi fazer a minha parte:
colorir a vida
com as cores que tenho.
Uma dose de empenho,
mais um tanto de arte.
Eu estendo a cor
sobre o tablado da desilusão.
Amarro a ponta
para que, esticada,
seja como um bordão
de uma dança improvisada.
Quero homenagear a esperança que resta,
convidar o mundo todo a vir à festa.
Se seu regulamento permitir bailar,
venha conosco.
Teremos muito gosto em receber
o autor de todas essas fitas
que me propus combinar
para tornar a sorte mais bonita.
Busquei-as naquele arco colorido
com que Você pinta o céu,
saído das tintas da paleta.
Desculpe se meu ato é atrevido,
mas, se não for assim,
essa vida vai ficando branca e preta.

Em  Amor a Céu Aberto, 1992

REZA DE MÃE

Nem imagino onde eles estão agora.
Era mais fácil quando vestiam o pijama
e pediam a história do elefante azul.
Parece que restou um cheirinho de talco
na almofada do quarto;
deve ser só impressão...
Nesse tempo, eu não tinha medo da noite
ela era o telhado dos poetas;
as sombras eram apenas a franja
mal aparada dos anjos.
A trava na porta me bastava.
Hoje, as camas vazias me assustam.
Elas acusam o passar das horas
e denunciam a revoada dos pardais,
os meus pardais.
Já não posso abrir minhas asas sobre eles.
São pequenas demais para cobri-los,
frágeis demais para defendê-los.
Ainda bem que me resta a prece,
minha aliada nos dias de nuvens e
nas madrugadas sem fim.
Peço perdão pela insistência,
mas reza de mãe é assim mesmo:
pura perseverança.
Que Deus abençoe minhas crianças
de barba na cara e calçado quarenta e dois
(o resto na vida é secundário e fica pra depois);
que as ilumine com Seu sorriso
e, se preciso, acione Seu séquito de estrelas
(se tiver que usá-las, prometo devolvê-las).
E quando o cansaço me quiser já recolhida,
hei de poder sorrir pela missão cumprida.

Em  Chão de Vento, 2005

EXPECTATIVA
O vento anda ficando mentiroso.
Prometeu trazer você - não trouxe.
Ficou de dizer o porquê, não disse.
Esperou que eu me distraísse,
passou depressa, rumo ao horizonte.
Já não tem importância
que cometa outra vez,
um ato de inconstância.
Aprendi a esperar.
Se ventos são capazes de levar embora,
a qualquer hora,
também,são capazes de fazer voltar.

COLA-TUDO

Encontrei um verso fraturado,
caído na esquina da rua do lado,
Tinha se perdido de um coração saudoso
que passava por ali, desiludido.
Coloquei-o de pé,
emendei seus pedaços,
refiz suas linhas,
retoquei seus traços.
Afaguei suas dores como se fossem minhas.
Agora, novamente estruturado,
espero que ele não olhe para trás
e não misture sonhos
com amargas falências do passado;
que saiba enfeitar a estrela lá na frente
com fartos laços de rima colorida.
pois é para o futuro que caminham
todos os passos apressados desta vida.

Método Infalível

Aproxime-se mais.
Tente sentir do que um abraço é capaz.
Quando bem apertado,
ele ampara tristezas,
sustenta lágrimas,
combate incertezas,
põe a nostalgia de lado.
É até capaz de amenizar o medo.
Se for cheio de ternura,
ele guarda segredos
e jura cumplicidade.
Um abraço amigo de verdade
divide alegrias
e se apraz em comemorações.
Abraços são pequenas orações
de fé, de força e energia.
Olhe para o lado:
há alguém que quer ser abraçado
e não tem coragem de dizer.
Enlace-o.
O pior que pode acontecer
é ganhar de volta um sorriso de carinho
ou, quem sabe, uma palavra sincera.
Você vai descobrir que ninguém está sozinho
e que a vida pode ser um eterno céu de Primavera.


RODA-VIDA

Que ideia é essa,
que entorna o caldo,
derrama o mel,
quebra a vidraça,
que de repente passa
e me entorta a cabeça?
Que ideia é essa,
que chega descalça,
cabelos ao vento,
o peito desnudo,
que desacata tudo
e me vira às avessas?
Que ideia é essa?
 

CALENDÁRIO

O tempo vai jogando fora

brinquedos,

desenhos,

rolhas de garrafa.

Vai dobrando papeis,

fechando gavetas,

empilhando livros,

apagando etiquetas,

Que bom que o tempo tem tantas coisas a fazer!

Se não tivesse,

ele teria sido apenas um corpo

que desliza,oscila,cansa

e envelhece.

BAGAGEM

Arrumo a valise para a partida.

É bagagem de pouco peso

porque vai desprovida de vaidade.

Sonhos moldam-se aos

espaços disponíveis;

o resto são afetos e saudades.

Dispenso cadeado:

Sentimento não é coisa para se roubar.

Tampouco colo etiquetas,

já que as curvas do meu caminho

nem eu mesma sei onde vão dar.

Uma flor no cabelo,

uma reza no peito,

a cruz companheira,

saio de alma lavada à procura de mim.

Guardo nos olhos as cenas que vivi

e parto em busca de uma tarde de rubi.

BORBULHANTE

Guardei meu poema dentro de uma bolha de sabão.
Como não ficar seduzida
Pela circunferência lisa e transparente,
Onde o arco-íris passeia docemente,
E morre de amores pela espuma colorida?
Acomodada na nova moradia,
O poema suspirou e adormeceu.
Quando acordou já não mais me pertencia.
A bolha de sabão se deslocara
E o poema apaixonado que eu criara
Descobriu de repente que era teu.

O COLECIONADOR  DE  ESTRELAS

O menino de olhos tristes

descalçou os sapatos,

rasgou os contratos

e partiu.

Foi colecionar estrelas.

Algumas delas

deslizaram do escuro

e ofereceram-se encantadas;

outras, lívidas de espanto,

ficaram acuadas sem se entregar,

pois o menino de olhos tristes

destelhara os segredos da noite

e dominara os decretos do mar.

Ao perceber-se abarrotado de estrelas,

o menino içou as velas

e voltou.

Mas - surpreso - constatou

que sua coleção tinha debandado

e retornado a seu próprio território.

Ele olhou o céu novamente estrelado

e dormiu agradecido.

O menino de olhos tristes tinha aprendido

a beijar a vida e abraçar o transitório.

(Ilustração de Douglas Soares)

ORIGAMI


Dobra que dobra,
redobra.
Põe de pé,
puxa as pontas.
Não fica perfeito,
mas faz de conta;
um pouco torto,
mas ninguém vê.
Não faz mal:
é só um pedaço morto
de folha de jornal.
Ficou de lado,
meio largado
na gaveta.
Ao voltar,
as letras de papel terão voado.
Palavra mal guardada
acaba se tornando borboleta.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Rainer Maria Rilke _ Da Necessidade de Sonhar

 

 

Tem paciência com tudo não resolvido em teu coração,
e tenta amar as perguntas em ti como se fossem quartos trancados, ou livros escritos em idioma estranho.
Não pesquises em busca de respostas que não te podem ser dadas,
porque tu não as podes viver, e trata-se de viver tudo.
Vive as grandes perguntas. Agora.
Talvez num dia longínquo, sem o perceberes,
te familiarizarás com a resposta.

  

“Senhor: é mais que tempo. O verão foi muito intenso.

Lança a tua sombra sobre os relógios de sol

E por sobre as pradarias desata os teus ventos.

Ordena às últimas frutas que fiquem maduras;

Dá-lhes ainda mais uns dois dias de calor,

Leva-as à completude e não deixes de pôr

No vinho pesado sua última doçura.

Quem não tem casa, não a irá mais construir.

Quem está sozinho, vai ficá-lo ainda mais.

Insone, há de ler, escrever cartas torrenciais

E correr as aléias num inquieto ir-e-vir ,

Enquanto o vento carrega as folhas outonais”

Poemas (tradução de Paulo Paes, Companhia das Letras, 1996)

 

Pausa
Na correria da vida apressada,
Um silêncio, para fazer parar o ruído
Uma paragem, para fisgar de longe o alvo
Uma pausa, para poder pensar a vida
Uma pausa, para saborear mais
E fruir somente,
Aquilo que existe,
Aquilo que existe e é real,
Profundo, verdadeiro, autêntico
Para ganhar distância,
Sem recuar,
Sair de cena, fazer vazio
E só então prosseguir,
Por entre a memória do passado
E a miragem do futuro,
Procurar sentido
E deixar-me ir,
Apenas ir,
Pensar para agir,
Partir,
Viajar para sentir,
Fugir,
Mas sempre para depois poder regressar.

 

O Fruto

Subia, algo subia, ali, do chão,
quieto, no caule calmo, algo subia,
até que se fez flama em floração
clara e calou sua harmonia.

Floresceu, sem cessar, todo um verão
na árvore obstinada, noite e dia,
e se soube futura doação
diante do espaço que o acolhia.

E quando, enfim, se arredondou, oval,
na plenitude de sua alegria,
dentro da mesma casca que o encobria
volveu ao centro original.

(Tradução: Augusto de Campos)

 

O tempo não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não representam nada. Ser artista não significa calcular e contar, mas sim crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta tranqüila as tempestades da primavera, sem temer que, após ela, o verão possa não vir. O verão há de vir, mas só virá para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se se diante deles estivesse a eternidade. 

 

Se o cotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas.

 

Rainer Maria Rilke nasceu em 4 de dezembro de 1875, em Praga, na República Tcheca, então pertencente ao Império Austro-Húngaro, e mudou seu nome, originalmente René, para Rainer. É considerado como um dos mais importantes poetas modernos da literatura e língua alemã, por sua obra inovadora e seu incomparável estilo lírico.

O encanto de sua obra perdura até nossos dias.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Alguma Poesia Carlos Drummond

Cansada de tanta tragédia,

tanto sofrimento apresentado

diariamente nos noticiários,

com grande insistência,

refugio-me na Poesia

e divido com você, leitor amigo,

o prazer de reler Drummond.

    Além da Terra, além do Céu

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

 

Desejo a vocês
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com os amigos
Viver sem inimigos
Filme na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Ouvir uma palavra amável
Ver a banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir não
Nem nunca, nem jamais
Nem adeus
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de amor
Tomar banho de cachoeira
Aprender uma nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas com alegria
Uma tarde amena
Calçar um chinelo velho
Tocar violão para alguém
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu

         Carlos Drummond de Andrade        

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

NATAL e ANO NOVO pela ótica de CARLOS DRUMMOND

Ninguem nos oferece a  poesia

das festas natalinas como Carlos Drummond.

Estes trechos são de seu livro

“ Receita de Ano Novo”

Editora Record  2008

e espero que transmitam aos amigos ,

que  gentilmente visitam meu blog,

o mesmo encanto que me proporcionam.

Junto a  eles vão meus votos de um feliz 2010.

 

REINAUGURAÇÃO

Entre o gasto dezembro e o florido janeiro,

entre a desmitificação e a expectativa,

tornamos a acreditar, a ser bons meninos,

e como bons meninos reclamamos

a graça dos presentes coloridos.

Nossa idade – velho ou moço – pouco importa.

Importa é nos sentirmos vivos

e alvoroçados mais uma vez,

e renovados de beleza, a exata beleza

que vem dos gestos espontâneos

e do profundo instinto de subsistir

enquanto as coisas

em redor se derretem e somem

como nuvens errantes no universo estável.

Prosseguimos. Reinauguramos.

Abrimos olhos gulosos a um sol diferente

que nos acorda para os descobrimentos.

Esta é a magia do tempo.

Esta é a colheita particular que se exprime

no cálido abraço e no beijo comungante,

no acreditar na vida e na doação de vivê-la

em perpétua procura e perpétua criação.

E já não somos apenas finitos e sós.

Somos uma fraternidade, um território,

um país que começa outra vez

no canto do galo de 1º de janeiro

e desenvolve na luz

o seu frágil projeto de felicidade.

 

 

Receita de Ano Novo

 

Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,

Ano Novo sem comparação

com todo o tempo já vivido

(mal vivido ou talvez sem sentido)

Para você ganhar um ano

não apenas pintado de novo,

remendado às carreiras,

mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,

novo

até no coração das coisas menos percebidas

(a começar pelo seu interior)

novo espontâneo,

que de tão perfeito nem se nota,

mas com ele se come, se passeia,

se ama, se compreende, se trabalha,

você não precisa beber champanha

ou qualquer outra birita,

não precisa expedir nem receber mensagens

(planta recebe mensagens?

passa telegrama?)

Não precisa fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido

pelas besteiras consumadas

nem parvamente acreditar

que por decreto da esperança

a partir de janeiro as coisas mudem

e seja tudo claridade, recompensa,

justiça entre os homens e as nações,

liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,

direitos respeitados, começando

pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo  novo,

eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e espera desde sempre.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Página final

por Flora Figueredo

Gosto muito das poesias de Flora Figueiredo, especialmente desta que retrata bem a correria de nosso dia-a-dia.

Mais uma vez o tempo me assusta.
Passa afobado pelo meu dia, 
Atropela minha hora, 
Despreza minha agenda. 
Corre prepotente,
A disputar lugar com a ventania. 
O tempo envelhece, não se emenda.

Deveria haver algum decreto
Que obrigasse o tempo a desacelerar
E a respeitar meu projeto. 
Só assim, eu daria conta
Dos livros que vão se empilhando, 
Das melodias que estão me aguardando, 
Das saudades que venho sentindo, 
Das verdades que ando mentindo, 
Das promessas que venho esquecendo, 
Dos impulsos que sigo contendo, 
Dos prazeres que chegam partindo, 
Dos receios que partem voltando.

Agora, que redijo a página final, 
Percebo o tanto de caminho percorrido
Ao impulso da hora que vai me acelerando. 
Apesar do tempo, e sua pressa desleal, 
Agradeço a Deus por ter vivido, 
Amanhecer e continuar teimando ...